CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO

 

Salve amigxs,

A revista anarco-feminista interseccional, A Inimiga da Rainha, caminha para a feitura de sua terceira edição. Um espaço de denúncia e construção coletiva na qual a realidade entra em debate. Realidade social, subjetiva, política, cotidiana e estética. Aproximando nossas lutas para que vínculos reais de solidariedade fortaleçam nossos corações ao resistirmos juntxs contra a proliferação da violência fascista que ludibria cinicamente nossa sociedade.

Visamos um feminismo que apoia e incorpora a luta da comunidade trans, pobre, negra, e indígena. Lutamos contra o ‘feminismo’ cooptado pelo Capitalismo e pelo Estado. Não basta lutar contra o Estado, lutamos também contra o patriarcado, a supremacia branca, o Capitalismo e o neo-colonialismo.

Ficou interessadx em contribuir? Envie-nos seu conteúdo (imagem, texto teórico, literário, poético, tradução, e o que mais quiser que caiba em 3 páginas ou no máximo 2 mil palavras) para o e-mail ainimiga@riseup.net até o dia 31 de agosto.

*Obs: Todas as referências, notas, etc., deverão vir no final do texto.

ESPERAMOS VOCÊS!

As edições anteriores estão disponíveis aqui:

nº1 https://ainimiga.noblogs.org/files/2017/10/INIMIGA-para-ler.pdf

nº2 https://drive.google.com/file/d/1lOaeykDMIBDICCFKH7-kR9H8MfA0L8rW/view

 

Comida Não é Mercadoria

Comida é muito mais do que um produto do supermercado.

Comida é natureza, é vida, e estamos perdendo consciência disso.

Umbigo de bananeira, o que alguns chamam de “coração”, é o que cresce na ponta do cacho de banana. Corta-se o umbigo do cacho na bananeira quando ele está aproximadamente 15cm de distancia das bananas.

Fazemos isso para que ele não

roube energia do cacho; para que as bananas cresçam bem, e fiquem mais suculentas.

As folhas vermelhas são duras,

a removemos e compostamos. O que se come são as flores entre as folhas vermelhas, e o miolo que parece palmito.

Enquanto cortamos, deixamos

de molho em água e limão, para que o “coração” não escureça (oxide). As flores são mais amargas do que o “palmito” (miolo).

Para tirar a amargura, fervemos água com 1 ou 2 colheres de bicarbonato por no máximo 3 minutos. Se ferver demais, a comida perde a estrutura.

Escoe a água, e repita o processo 3 vezes. Depois de escoar pela 3a vez, refogue como quiser.

Aqui fiz um molho de barbecue,

Com 2 copos de molho de tomate,

1/2 copo de vinagre de maçã,

1/4 copo de Açúcar mascavo,

1 colher de molho inglês,

1 colher de suco de limão,

Sal, pimenta, misturado e aquecido.

Fica ótimo como recheio, tem a textura de porco desfiado e é um ótimo substituto para carne.

É saudável- diminui o nível de açúcar no sangue, ajuda a previnir câncer e doenças cardíacas, e até ameniza a ansiedade e o mal-humor. É rico em fibra, livre de crueldade, não vem embalado, então- tudo de bom.

Comida não vem do supermercado; não tem preço, marca, nem embalagem.

Ela vem da terra, do conhecimento ancestral, e das forças da natureza.

(Archive.org)

Tarsila no MASP: Mancada Artística de São Paulo

As obras de Tarsila do Amaral estão em casa, na terra onde nasceu e morreu a figura e seu movimento. É difícil aceitar que sua volta ao Brasil é inusitada- as filas estão monumentais, como se fosse nossa única chance de recebê-la. Apesar de todos os erros e hipocrisias presentes no museu, é uma uma oportunidade imperdível para quem tem o privilégio.

A fila se estende tanto para fora quanto para dentro do museu; a linha continua por algumas obras, até A Negra. Os clássicos Abaporu e Antropofagia carregam pinceladas brutas- visíveis apenas em pessoa e de perto. O sol encosta no cactus, o cactus encosta na pele, não há profundidade, e ao mesmo tempo a profundidade poética e estética domina.

A Negra e Abaporu foram degraus para chegar à Antropofagia, mas a organização do espaço obscura tal detalhe. A tinta óleo na tela de A Negra é cintilante e clássica. Enquanto em Abaporu e Antropofagia o óleo é crayon, resgatando maravilhosamente a pureza do imaginário.

E ela não só imaginava, viajava. As paisagens surreais são um dedo do meio que se levanta para europeus que voltavam para seu continente antes da revolução industrial e continuavam a pintar e vender mentiras. Tais obras são retratações deturpadas de animais, plantas e, principalmente, do nosso povo.

O Frans Post, por exemplo, “continuou a pintar paisagens brasileiras bem depois de sua visita ao Brasil (em meados do século 17), porque ‘vendiam muito bem’ – enquanto ‘nem um único estudo de animal ou planta de sua mão era conhecido’. Em outras palavras, ele estava pintando fantasias, e ele não é o único artista holandês em museus de hoje que fez isso.” (Legado e liderança de mulheres indígenas)

Ele não era tão grotesco quanto Albert Eckhout, cujo trabalho propagava uma imagem absolutamente desvirtuada de indígenas e mestiços brasileiros. Mas ele foi pioneiro, ao abrir caminho para artistas como Eckhout e plantando as sementes do exoticismo Europeu que ainda nos consome hoje.

Tarsila, por outro lado, parece falar, “Se vai ser assim, vamos pro psicodélico de vez”. O que é uma representação infinitamente mais autêntica e, paradoxalmente, realista. Tal era a visão que só poderia vir de uma mulher brasileira, com um entendimento revolucionário da identidade do povo dessa terra.

O entendimento crítico da nossa identidade colonizada se manifesta não só na arte dela, mas também geria o movimento antropofágico do qual a artista fazia parte. Esse movimento visava minar o Eurocentrismo, ao fortalecer nossa autenticidade e conter nossa tendência a imitar o ocidente.

Tarsila tentou resgatar a imagem dos Indígenas como um povo que valoriza a vida em Batizado de Macunaíma. O que é um forte contraste aos europeus, como Albert Eckhout, que voltavam para suas terras descrevendo-os como canibais animalescos.

Existem erros. Escreveram que a flor vermelha em Cuca precede a de Abaporu, sendo que a flor está em Antropofagia. A moldura mais tosca que já vi na minha vida engole Cuca, mas talvez ela só exalte a beleza da obra. As pessoas fazem pouco mais do que tirar selfies e matar tempo, já que ficar mais tempo na linha pra entrar do que tirando fotos é desconfortável. Porém, nenhum erro foi tão crasso quanto exibir o Frans Post, no andar de cima, e exaltá-lo.

O MASP abre o panfleto da exposição com a citação acima. Porém, esse é um fragmento descontextualizado do argumento da artista. A opinião de Tarsila era que “pintar paisagens e caboclos do Brasil não é ser artista brasileiro”. “Academias” refere-se ao método clássico, “corrompido”, Europeu. Isso certamente descombina com chamar Post de “cuidadoso” em suas representações. Esses tropeços expõem o MASP, o cartão postal de uma das metrópoles mais importantes da America Latina e uma referência cultural mundial, como uma instituição que impulsiona o Eurocentrismo e aborda conceitos críticos superficialmente.

Tarsila do Amaral não apenas discutia a Europa, mas também a Russia. O Operários foi inspirado pelo estilo de propagandas políticas Soviéticas durante sua visita à União nos anos 30. Tomara que tal detalhe não tenha se perdido na audiência “apolítica” que veio pela photo op. Os trabalhadores constituem a realidade brasileira tanto quanto negros, indígenas, e cristãos humildes.

Em geral, é visível que da década de 20 para 30 o trabalho de Tarsila escureceu. As cores dançantes tornam-se amarronzadas e acizentadas. A vibração da natureza, de repente, fica poluída; não há melhor retrato para o impacto da industrialização e do capitalismo.

Ao menos, as obras de Tarsila não foram expostas como o restante do museu. Haviam paredes, em vez de lâminas de vidro, o que possibilita apreciar uma obra sem dezenas de outras no fundo. No segundo andar, obras de Picasso, Gauguin, Monet, Degas, Raphael e muitos outros flutuam congestionadas.

Na entrada, expõem a desigualdade de gênero que contamina o espaço. Dos clássicos, a minoria que listei acima é isenta de denúncias de misoginia ou pedofilia. Além disso, há obras que explicitamente glorificam abuso. Angélica Acorrentada, de Ingres, retrata uma menina que é nova demais para ter pelos pubianos e, acorrentada, oferece seu “amor” após ser salva pelo herói. O “herói ganha[r] o seu amor” só pode significar objetificação do corpo da nem-ainda-mulher e uma representação misógina do conceito de amor. No mínimo é indistinguível de pornografia, e violentamente dramatiza o erótico.

Mas isso não é anacronismo? Bom, mulheres e crianças não começaram a ser abusadas no século XXI. Glorificar homens abusivos na antiguidade representa perigos reais para a população contemporânea. É para censurar? Necessariamente, não. Porém, se for exibir esse tipo de arte, que seja de forma crítica. Pouco custa escrever textos mais sensatos, com análises em sincronia com os tempos de hoje. Anti-anacronismo e anti-censura não deveriam ser desculpas para alimentar conceitos retrógrados e continuar vivendo no passado.

Independentemente das reclamações e opiniões, ver aquela obra da Tarsila no canto da sala radiando nas brechas entre os corpos da multidão é o suficiente pra ligar os arrepios do corpo. Os vermelhos, em particular, se acendem e te atravessam. Seu legado é inegável na nossa identidade; uma identidade que é tão estética quanto existencial, além de política.

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Texto alternativo para Angélica Acorrentada:

Ingres, como também Picasso, Degas e Bacon, foram fortemente influenciados pelo artista francês Marquis de Sade. Famoso por sua sexualidade libertina, Sade tinha uma filosofia artística do século 17 e 18 que, muitas vezes, envolvia pornografia. Tal influência é exemplificada por Angélica Acorrentada.

Esta obra de Ingres “remonta ao poema épico Orlando Furioso (1516)”, em que Angélica, uma princesa pagã, resgata um cavaleiro ferido e os dois se apaixonam. É por isso que Orlando, um paladino famoso que era perdidamente apaixonado pela princesa, fica furioso e sai pela Europa e Africa- com o intuito de destruir tudo em seu caminho. Em algum momento, Angelica é acorrentada e oferecida como sacrifício para um monstro marinho. É então que um cavalheiro africano chamado Ruggiero a resgata e lhe dá de presente um anel de invisibilidade. Mais tarde, ela usa este anel para escapar de Orlando e sua loucura.

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Texto: Mirna Wabi-Sabi

Edição: Guilherme Ryuichi

Mulher do Lar

Oi Pessoal!

Fiz esse video sobre como consertar umas coisas pela casa. O propósito é desconstruir certos paradigmas de classe e gênero, e expandir a consciência que temos do nosso ambiente.
Esses são trabalhos tipicamente atribuídos à homens e à classe “trabalhadora”. A classe média intelectual parece ter se alienado da própria realidade, e perdemos um pouco da habilidade de botar a “mão na massa”, no sentido literal e figurativo do termo.

Como tudo, esse projeto tem um âmbito politico. Muito do que eu aprendi a fazer pela casa foi por ter ocupado, e por não ter a tendencia de “contratar” alguém para fazer coisas para mim, em geral. Isso quer dizer que ideologicamente temos o intuito de repensar o conceito de propriedade, o que é um legado anarquista pensado por Proudhon. E também rejeitamos o principio Capitalista de distribuição de renda de forma exploratória, que é a base da cultura “faça você mesma” (DIY).

Por outro lado, esse projeto tem um aspecto pessoal. Fiz esse video em um momento de muita fragilidade emocional, onde muitos acabam cedendo à intoxicação e outras distrações talvez toxicas. Esse tipo de trabalho é bastante terapêutico, e traz um bem estar prolongado, porque em casa você convive diariamente com o fruto do seu próprio trabalho, e com a ideia de que você é capaz.

Espero que gostem.

Neste Episódio:

  • Caixa Acoplada Deca

Como limpar borracha, e prevenir vazamento.

Regular boia para reduzir consumo de água.

Improvisando com a corrente.

  • Torneira bóia para caixa de descarga Amanco
  • Sifão Sanfonado Universal
  • Fita Veda Rosca
  • Massa corrida

Ana Paula da Silva (PDT): inimiga ou rainha?

Já deu de comentários sobre o decote da mulher, certo? Solteira, de 40 e tantos anos de idade, chegando produzidaça mostrando o corpo não é problema de ninguém. O debate não devia nem ter começado, muito menos quando envolve a palavra com P, que pertence apenas às próprias pessoas que se auto-identificam e se empoderam com ela.

O que não podemos fazer é deixar o feminismo ser apropriado por pessoas que se propõem fortalecer a hegemonia patriarcal, branca e capitalista.

Ana Paula da Silva (PDT) visa combater ou fortalecer o status quo? Supere o peito e ouça as palavras. Devemos lembrar que ela é politica, portanto fala o que o povo quer ouvir, não necessariamente cumpre promessas, e depende completamente do bom funcionamento do mecanismo estatal, mesmo quando é liderado pela oposição.

Como partido, o PDT tem muito a ganhar com essa polêmica. Numa conjuntura extremamente conservadora (machista), e um povo em grande parte critico à atual liderança, criar uma imagem feminista é eficaz para chamar a atenção de todos e todas que visam um estado “mais de esquerda”.

Nas politicas públicas, ela representa resistência ou complacência? Em uma entrevista, Paulinha fala claramente que, enquanto não votaria para Bolsonaro, acredita que “o Estado tem que funcionar”. Além disso, ela se considera amiga do advogado Jorge Bornhausen, independentemente de diferenças ideológicas.

Esse homem foi filiado à ARENA, o partido que “sustentava o Regime Militar“. É complicado falar que “amigos não tem fronteiras” e superam divergências politicas, quando esse mesmo amigo literalmente financia sua campanha.

Não apresento respostas, o campo politico está tumultuoso demais para soluções diretas e claras. Mas podemos desenvolver um olhar mais critico em relação à mídia para não cairmos em armadilhas. Não se deixe distrair por objetos cintilantes, ou decotes extravagantes. Deixe a militância onde ela pertence, nos corações da verdadeira resistência.

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texto: Mirna Wabi-Sabi